
Eu tremo de frio e, no entanto, estou quente. Qualquer um que tocar minha pele sentirá o calor. Os calafrios são inevitáveis. Como ondas eles insistem em vir, repetidamente, sem dar sinal de trégua. O horário é o mesmo, final da tarde, o dia começa a esfriar, as pessoas deixam seus trabalhos, e ela é britânicamente pontual. Quando a inevitabilidade do que virá é finalmente percebida eu paro de me mover. Mas é inútil. Cada leve balanço do corpo provaca mais uma onde de calafrios, respirar se torna um movimento racional na tentativa de impedir o inevitável.
A sensação é infinita, naquele momento parece que não existirá futuro nem nunca existira passado. O presente me toma como o único tempo que há, e com ele só esse sofrer, sereno, tranquilo, contínuo. A mente não pode nada contra isso, está fora do racional, inalcançável. Mas ela percebe outras coisas, a fraqueza que toma conta de tudo, nada mais responde com prontidão. A pernas obedecem a enorme custo, a escada é um desafio para paciência. A mente racional faz sua associação e com um naco de memória em mãos lembra que já foi pior, a caixa de leite já foi esse desafio. Então o racional tenta consolar, mas não há consolo, o corpo só sente o presente, e sempre foi assim. Respirar é difícil e deve ser feito com calma, planejado. Existe uma dor no peito.
É difícil não entrar em desespero. Tudo se vai, o mundo fica distante, você se sente sozinho, só você passa por isso, no seu presente constante não existe mais ninguém. A família acalenta, mas não se pode compartilhar isso, é meu, só meu. É a coisa mais desgraçada e preciosa do mundo, porque só eu posso tê-lá, assim, desse jeito que ela se mostra para mim. Vem o abraço amigo, o aperto de mão, a palavra animadora. Mas é tudo efêmero e só existe ela, o tempo todo. Egoísta. Egoísta de mim. Não me deixa viver.
O veneno me salva, como sempre salvou. “Mais veneno!” o doutor prescreve, “isso deve adiantar”. E adianta, mas não sem um custo, alto. Ele me deforma, meu rosto se torna tão diferente que algumas pessoas não me reconhecem, pessoas distantes que me conheceram antes dela. Eu estou inchado.
Então ela se vai, lentamente, com tudo aquilo que trouxe consigo. O mundo se torna mais perto e conhecido, foi como uma viagem que terminou. Estou de volta em casa, me saúdam. “Que bom meu filho!”.
Mas eu ouso olhar para trás, e não vejo ela, vejo somente a mim mesmo. Como um reflexo, mas desses que não responde ao movimento, só me encara de volta. Com essa imagem eu percebo. Sou eu, sempre foi. Eu sou a febre.
São Paulo, 1º de Dezembro de 2007.
16:35
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