Paula Rego, artista portuguesa

Paula Rego é uma incrível artista portuguesa, serve de referência e inspiração. Suas pinturas e gravuras estiveram esse ano em exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Eu vejo ela regional, para ser global. Na minha opinião suas figuras tem a face de seus compatriotas, apesar de se radicar em Londres na década de 1970.

Suas gravuras e pasteis em grande formato impressionam. A temática, do material que eu conheci na exposição e encontro pela internet, varia entre a fantasia e cenas cotidianas, as vezes com as duas situações em uma única obra, obras que lembram “Alice no País das Maravilhas”.

Separei algumas imagens das obras para ilustrar o post, e para saber mais e ver mais obras da artista visite o site da Casa das Historias Paula Rego.

A casa do corvo, 1994, Água-forte e água-tinta
A Dança, 1988, Água-forte e água-tinta
A Frog he would a-wooing go I, 1989, Água-forte e água-tinta
Entre Mulheres, 1997, Pastel sobre papel montado em alumínio
Amor, 1995, Pastel sobre papel montado
Agonia no Horto, 2002, Pastel sobre papel montado em alumínio

Manuela #01

Bom. A “Manuela” #01 é muito grande para digitalizar, então fotografei. Eu não acho que qualquer dessas maneiras faz juz a gravura impressa. A gravura merece ser vista ao vivo.

Mas eu tenho falado sobre a gravura sem apresentá-la, o que empobrece o material. Assim, aqui está a primeira “Manuela”, na sua última versão, após o breu sobre breu.

A segunda mão de breu aconteceu para criar as duas áreas grandes e escuras da gravura e a sombra que define o braço.

Durante a execução dessa segunda mão de água-tinta eu coloquei em prática a teoria do grão fino que citei no post “Minhas experiências com água-tinta” e fui feliz no resultado.

Após a suspensão do material na caixa de breu, houve uma demora de cerca de 3 minutos até colocar a placa lá dentro. Isso me deu um grão que gerou uma mancha mais igual na área mais escura da impressão.

Um dia depois, em um vídeo no youtube (que não tive o cuidado de guardar, por isso não tenho o link) vi a mesma teoria sendo colocada em prática. O vídeo dizia para placa ficar cerca de 5 minutos dentro da caixa, que eu achei tempo longo demais. Não costumo deixar mais do que 1 minuto para o pó assentar sobre a placa.

Nesse dia, também usei uma goma laca diferente, mais grossa, feita no próprio atelier, que respondeu melhor na placa, sem expandir demasiado.

As primeiras impressões da série “Manuela” #01 existia pouco contraste entre as manchas, o que limitava o impacto da obra, na minha opnião. Como se vê na figura abaixo.

Minhas experiências com água-tinta

Só para ilustrar, a Enciclopédia Itau Cultural de Artes Visuais define

Água-tinta

Gênero da calcografia no qual o processo de produção das matrizes é químico, como o da água-forte, e se dá através da utilização de alguns líquidos corrosivos. A placa utilizada pelo gravador é pulverizada ou pintada com algum tipo de resina - damar, breu, copal, sandácara – ou por uma mistura de resina e outro componente – açúcar, sal, areia - e aquecida, de forma que a mistura se funda na placa, exercendo a mesma função protetora do verniz. Assim, quando a placa entra em contato com o ácido, os grãos de açúcar ou areia, por exemplo, produzem uma textura que é responsável pelo tom acinzentado da obra. Esse tipo de gravura oferece, como resultado, um desenho composto de áreas tonais e não linhas, como a gravação a entalhe. A técnica é usada por Thomas Gainsborough (1727 – 1788), Jean-Baptiste Le Prince (1734 – 1781), Paul Sandby (1725 – 1809) e também por Francisco de Goya (1746 – 1828), que combina água-forte e água-tinta, e retomada no século XX por Edgar Degas (1834 – 1917), Camille Pissarro (1830 – 1903), André Masson (1896 – 1987), Pablo Picasso (1881 – 1973), entre muitos outros.

Atualizado em 05/05/2008

A última “Manuela” impressa após a água-tinta foi a terceira experiência que eu tive com esta técnica, e a segunda que dá certo.

A primeira experiência resultou em um placa queimada e um crânio perdido. Não foram tomados os devidos cuidados com isolamento, desengorduramento e tempo de mergulho no mordente. Mas as duas outras experiências posteriores, duas “Manuelas”, geraram estampas bem acabadas.

Na primeira “Manuela” eu fiz uma impressão de prova da água-forte e realizei estudos com aquarela para planejar a mancha da água-tinta. O processo foi razoavelmente controlado e o tempo no ácido já era mais conhecido.

Na “Manuela 02″ não houve planejamento com aquarela, após a impressão da água-forte fiz as queimadas da água-tinta até atingir o resultado imaginado e realizar a impressão.

A água-tinta é um processo dificil de se realizar, existe uma imprevisibilidade de comportamento do material que precisa ser considerado. O verniz que utilizado foi a goma laca fina, que não se restringia a pincelada e expandia na chapa.

Outra consideração que fizemos foi em relação ao grão. Na “Manuela 02″ o grão do breu é extremamente visível e isso me desagradou. Apesar de ter uma caixa de breu no Atelier Piratininga, o que faz assentar em uma camada equilibrada do material por toda a placa, acredito que colocamos a placa dentro da caixa muito cedo. A minha teoria é que quando acionamos a manivela para suspender o breu dentro da caixa o grão mais grosso é o primeiro a assentar, se esperarmos um certo tempo após a suspensão do breu irá restar no ar o grão mais fino que irá proporcionar uma mancha mais pura. Vou colocar a teoria em prática na próxima “Manuela”.

Além disto, nas duas “Manuelas” houve uma certa dificuldade em lidar com a tinta e com o papel. A primeira tentativa foi com uma tinta mais densa e pegajosa onde achávamos que o grão agarraria melhor. No entanto, conforme as “Manuelas” foram saindo da prensa, percebemos que o papel deve estar mais húmido e a tinta mais oleosa do estávamos acostumados na água-forte.

As diferenças são sutis porque as impressões foram muito bem executadas pelo meu mestre Ulysses Bôscolo, mas existem.

Claro que aquilo que me desagrada não é necessáriamente um erro, e as vezes uma experiência inesperada pode abrir novas possibilidades.

Mas a água-tinta me agradou muito, é uma forma muito bonita de proporcionar luz e profundidade na gravura, aproximando-a da pintura de alguma forma. Vou continuar estundando e praticando essa forma de gravar.

Febre

Eu tremo de frio e, no entanto, estou quente. Qualquer um que tocar minha pele sentirá o calor. Os calafrios são inevitáveis. Como ondas eles insistem em vir, repetidamente, sem dar sinal de trégua. O horário é o mesmo, final da tarde, o dia começa a esfriar, as pessoas deixam seus trabalhos, e ela é britânicamente pontual. Quando a inevitabilidade do que virá é finalmente percebida eu paro de me mover. Mas é inútil. Cada leve balanço do corpo provaca mais uma onde de calafrios, respirar se torna um movimento racional na tentativa de impedir o inevitável.

A sensação é infinita, naquele momento parece que não existirá futuro nem nunca existira passado. O presente me toma como o único tempo que há, e com ele só esse sofrer, sereno, tranquilo, contínuo. A mente não pode nada contra isso, está fora do racional, inalcançável. Mas ela percebe outras coisas, a fraqueza que toma conta de tudo, nada mais responde com prontidão. A pernas obedecem a enorme custo, a escada é um desafio para paciência. A mente racional faz sua associação e com um naco de memória em mãos lembra que já foi pior, a caixa de leite já foi esse desafio. Então o racional tenta consolar, mas não há consolo, o corpo só sente o presente, e sempre foi assim. Respirar é difícil e deve ser feito com calma, planejado. Existe uma dor no peito.

É difícil não entrar em desespero. Tudo se vai, o mundo fica distante, você se sente sozinho, só você passa por isso, no seu presente constante não existe mais ninguém. A família acalenta, mas não se pode compartilhar isso, é meu, só meu. É a coisa mais desgraçada e preciosa do mundo, porque só eu posso tê-lá, assim, desse jeito que ela se mostra para mim. Vem o abraço amigo, o aperto de mão, a palavra animadora. Mas é tudo efêmero e só existe ela, o tempo todo. Egoísta. Egoísta de mim. Não me deixa viver.

O veneno me salva, como sempre salvou. “Mais veneno!” o doutor prescreve, “isso deve adiantar”. E adianta, mas não sem um custo, alto. Ele me deforma, meu rosto se torna tão diferente que algumas pessoas não me reconhecem, pessoas distantes que me conheceram antes dela. Eu estou inchado.

Então ela se vai, lentamente, com tudo aquilo que trouxe consigo. O mundo se torna mais perto e conhecido, foi como uma viagem que terminou. Estou de volta em casa, me saúdam. “Que bom meu filho!”.

Mas eu ouso olhar para trás, e não vejo ela, vejo somente a mim mesmo. Como um reflexo, mas desses que não responde ao movimento, só me encara de volta. Com essa imagem eu percebo. Sou eu, sempre foi. Eu sou a febre.

São Paulo, 1º de Dezembro de 2007.

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