Voltando do almoço para o trabalho tive um diálogo inesperado enquanto espera o sinal verde.
Parado em um farol da Paulista vi 3 meninos de rua tomarem suas posições no instante que o sinal tornou-se vermelho. 2 deles foram a frente das filas de veículos com bolas de tênis fazer as acrobacias de farol para tentar arrancar alguma humanidade, e algum dinheiro, daqueles que estavam em trânsito.
O 3º garoto veio até meu carro. Era negro, vestia uma camiseta cor laranja, e era alto para idade que aparentava.
Em geral, nos finais de semana, eu saio de manhã com o crachá já no pescoço. Depois de esquecé-lo tantas vezes e ter que identificar na portaria do trabalho tantas vezes, eu criei esse hábito para evitar futuros aborrecimentos.
Chegando próximo a janela do motorista enquanto balbuciava algumas palavras inintendíveis encarava meu peito, notei que tentava ler o que estava escrito no crachá com difilculdade (já que estava de cabeça para baixo do ponto de vista dele), ele reconheceu o brasão e o nome no cordão e me indagou conforme o diálogo abaixo:
Menino: – Você trabalha na prefeitura?
Eu: – Trabalho.
Menino: – Xi, ferrô. Você vai chamar a polícia?
Eu: – Por que?
Menino: – Porque todo mundo que trabalha na prefeitura chama a polícia ou o conselho.
Eu: – Conselho tutelar?
Menino: – É.
Eu: Não vou chamar. Eu trabalho em uma biblioteca.
Menino: – AAAHHH boommm.
(pequena pausa silenciosa)
Menino: – Você pode trazer um livro pra mim.
(sorrisos)
Eu: – Vou ver o que posso fazer.
O farol se abre. Seus colegas recolhem as bolas de tênis e correm para a calçada sem nenhum tostão. Ele vê e corre atrás. Encosta-se do lado dos amigos no novo alambrado de metal pintado de preto que circunda os finais de quarteirão da Avenida Paulista. Me olha. Balança a mão acenando e grita “Tchau!”.


